03/05/17

Grupo de mulheres da baixada cuiabana promove feira de produtos locais e oferece serviços de assistência social em comunidade carente de Mato Grosso

Emissão de documentos, consulta oftalmológica e corte de cabelo foram algumas das atividades do Dia D da Saúde da Mulher em Poconé (MT). A mobilização se insere em um processo mais amplo de fortalecimento comunitário e de prevenção do trabalho escravo.

Comunidade recebe serviços de saúde durante o evento (Foto: Adilson Juliano/ Prefeitura Municipal de Poconé)

“É um dia para as mulheres serem lembradas.” Com estas palavras, Rosenilda Fátima de Oliveira, destaca a importância do evento organizado por e para as mulheres de Nossa Senhora do Chumbo, distrito de Poconé. Rosenilda, auxiliar de serviços gerais na creche da comunidade, participa do grupo de referência que recebe o apoio da Comissão Pastoral da Terra (CPT), do Centro Burnier Fé e Justiça (CBFJ), do Ação Integrada (AI) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

O objetivo da ação, realizada em 25 de março, foi celebrar o Dia Internacional da Mulher e estimular o empoderamento feminino na região. “Devemos reconhecer e fortalecer o protagonismo dessas pessoas para elas assumirem a sua história”, explicou Glória Maria Muñoz, voluntária da CPT. A organização do evento se iniciou na reunião de 1º de janeiro, quando as mulheres de Nossa Senhora do Chumbo debateram e consolidaram uma lista de serviços a serem ofertados. “Tratamos sobre vários assuntos, sobre o Dia Internacional da Mulher, sobre como a gente poderia melhorar a comunidade local com a ajuda das mulheres”, descreveu Eliny Rosa da Silva, merendeira na creche.

De acordo com Cristiane Costa de Jesus, analista social e coordenadora do Programa de Formação Política Cidadã do CBFJ, as demandas das mulheres compreenderam a emissão de documentos, como por exemplo a carteira de trabalho, e a sensibilização para o combate à violência de gênero. A feira foi outro espaço planejado para o evento, visando comercializar os produtos agrícolas e os artesanatos: guardanapos, bordados, licores e frutas. “O desejo era de que a feira se tornasse uma oportunidade para as mulheres mostrarem o que produzem.”

Em fevereiro, elas se encontraram novamente para distribuir as tarefas de produção do evento. “Cada grupo ficou com uma parte do serviço para não pesar nem para um, nem para outro”, justificou Eliny. O primeiro grupo, responsável pela feira, falou com as produtoras para saber o que seria vendido e os valores. O segundo conversou com o diretor e solicitou o acesso às salas de aula para garantir o local para as atividades de assistência social. O terceiro requisitou o apoio da prefeitura e da comunidade para assegurar a alimentação. Durante o evento, houve a contribuição da Prefeitura Municipal de Poconé-MT e da Superintendência Estadual de Políticas Públicas para as Mulheres da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos (SEJUDH).

Cristiane relata que a ação foi bem recebida localmente. “Eu acho que o Dia D, pela mobilização e pela organização, foi um sucesso para as mulheres”. Eliny já tem vontade de planejar outro evento. “Fizemos tudo para deixar a organização nos conformes e não ter erro”. A merendeira lembrou, com um exemplo simples, que a mobilização gera a possibilidade de escolhas para a comunidade (carente de serviços e políticas públicas). Segundo Eliny, algumas mulheres pedem ao vizinho para cortar o cabelo, mas muitas vezes ele só conhece um penteado. Durante a ação, essas mulheres tiveram a oportunidade de decidir como querem arrumar o cabelo.

“As pessoas saem de lá com uma consciência bonita”, concluiu.

As mulheres de Nossa Senhora do Chumbo mobilizam e conscientizam a comunidade (Foto: Adilson Juliano/ Prefeitura Municipal de Poconé)

Empoderamento e geração de renda em Nossa Senhora do Chumbo

A mobilização se iniciou em setembro do ano passado e resultou na formação de um grupo de referência, composto por mulheres e homens do distrito. “São aqueles que se preocupam em fazer acontecer na comunidade”, argumenta Glória. Os envolvidos contam com o apoio dos parceiros, que pretendem, a partir de treinamentos, apontar alternativas para a geração de renda e aprimorar os meios de vida locais.

No entanto, Glória entende que a participação das organizações deve ser passageira e o grupo de referência deve continuar a mobilização após a retirada das influências externas. “A comunidade precisa ter possibilidades de emancipação”. A organização do Dia D é um pequeno passo para gerar a autonomia local

A participação das mulheres é relevante pois, muitas vezes, os homens trabalham em outras cidades e elas ficam em Nossa Senhora do Chumbo. “A comunidade não tem outras alternativas, se elas não se mobilizarem”, reforçou Cristiane. De acordo com Rosenilda, “a comunidade só tem a ganhar com a mobilização coletiva: novas pessoas, novos conhecimentos, novas ideias e pensamentos diferentes”.

A próxima atividade prevista na agenda das mulheres de Nossa Senhora do Chumbo é uma oficina sobre a beleza da mulher negra.

 

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