14/05/15

Melhorias na cobertura jornalística referente ao trabalho escravo são discutidas

Pau&Prosa-48

Buscar novas fontes, não se ater somente aos dados oficiais e atenção com as vítimas estão entre os caminhos para uma cobertura jornalística qualificada sobre o trabalho escravo. Os conceitos foram discutidos durante a Oficina de Capacitação para Imprensa “Trabalho Escravo”, realizada pelo Projeto Ação Integrada (PAI), na noite desta quarta-feira (13), em Cuiabá. Jornalistas dos principais veículos de comunicação de Cuiabá, assessores de imprensa e estudantes de Comunicação participaram do evento, que teve como objetivo ampliar a visão jornalística na produção de reportagens especiais sobre o assunto.

Marques Casara

Marques Casara

Convidado pelo Projeto para falar com seus colegas de profissão, o jornalista especializado em direitos humanos, Marques Casara, destacou que um dos principais erros na cobertura do trabalho escravo é quando o jornalista não vai além da notícia de um flagrante de trabalhadores resgatados. Segundo ele, por trás dessa cena, há diversos fatores que merecem ser investigados. “O jornalista hoje não apura as conexões envolvidas no trabalho escravo. Acredito que para o profissional das redações existe o fator tempo para atrapalhar essa apuração, porém, falta também um entendimento e expertise”.

Casara ainda destacou que além do cuidado com a própria vida durante a apuração de uma denúncia de trabalho escravo, o jornalista também deve ter atenção ao retratar os personagens. “Quando você está indo para um local desses, está entrando em um contexto criminoso. Logo, o cuidado com você mesmo deve ser grande, pois como jornalistas podemos sofrer represália, ataques e sermos impedidos de continuar nosso trabalho. Agora a atenção é maior ainda em relação às vítimas. Não se pode expor a imagem de um resgatado de qualquer maneira, pois isso trará consequências para aquela pessoa. O jornalista deve se preocupar em não ser um vetor de mais problemas para a vítima”.

Antonio_Carlos_Mello

Oficial de Projeto do Programa de Combate ao Trabalho Escravo da OIT no Brasil, Antônio Carlos de Mello, aponta a visão unilateral do jornalista como maior desafio na cobertura. Para ele, o grande erro em qualquer reportagem sobre trabalho escravo é quando o comunicador se limita aos dados oficiais ou informações repassadas por assessorias de órgãos públicos. “É preciso colher diversos pontos de vista, conversar com o MPT, com auditoria fiscal, secretarias de trabalho e não ficar restrito somente a uma posição. O cuidado ao ouvir diversas opiniões é um desafio para os jornalistas”.

Combate – Ao apresentar o Projeto Ação Integrada (PAI) aos jornalistas, o Procurador do Trabalho em Mato Grosso, Renan Bernardi Kalil, enfatizou que há duas vertentes quando se trata do combate ao trabalho escravo, a repressiva e a preventiva. Para o procurador, enquanto a repressiva tem políticas públicas já desenvolvidas no Brasil, a prevenção ainda é um problema e deve ser priorizada. Segundo ele, o PAI tem como princípio agir de forma mais preventiva e assistencial para evitar, entre outras consequências, que os trabalhadores resgatados acabem retornando às mesmas condições.

Renan_Kalil

“O Projeto entra nessa perspectiva da prevenção ao trabalho escravo, pois se depois que o trabalhador for identificado, resgatado e receber sua indenização, não for lhe dado uma estrutura para que consiga uma vida digna, com emprego e a oportunidade de sair daquele ciclo, ele vai voltar. A educação e qualificação profissional são fatores importantes para rompermos o ciclo da escravidão”.

Fonte: Pau e Prosa Comunicação

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