15/05/15

Estatísticas relacionadas ao trabalho escravo são debatidas por jornalistas

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Oficina de Capacitação para Imprensa “Trabalho Escravo”

Dados divulgados pelo Ministério Público do Trabalho e Emprego (MTE) nesta quarta-feira (13) mostram que, em 2014, somente uma pessoa foi resgatada do trabalho escravo em Mato Grosso. O número, que pode suscitar uma análise preliminar positiva em uma leitura rápida, assim como sua abordagem pelos veículos de comunicação, foi discutido durante a Oficina de Capacitação para Imprensa sobre “Trabalho Escravo”.

Realizada pelo Projeto Ação Integrado (PAI), a oficina debateu a repercussão do balanço divulgado pelo MTE, além do trabalho de apuração de jornalistas em reportagens sobre o tema. A iniciativa foi bastante elogiada pelos profissionais da comunicação, que reconheceram as dificuldades no aprofundamento da pauta, tanto pelo limitado tempo para apuração quanto pela sua complexidade.

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(Da esq. p/ direita) Marques Casara, Thiago Gurjão, Antônio Carlos Mello e Renan Kalil

Quando questionado de que forma trataria o único registro de resgate em Mato Grosso, o jornalista especializado em direitos humanos, Marques Casara, demonstrou o passo-a-passo de uma cobertura sobre o assunto. Ele disse, primeiramente, que não daria a notícia intempestivamente, guiado somente pelo dado apresentado, e sim que tentaria investigar o que isso pode representar.

De acordo com Casara, não se noticia uma redução no trabalho escravo no estado utilizando-se somente de comparativos de dados oficiais. Ainda mais se o número de resgatados cai de 135, em 2013, para um, em 2014. Para o jornalista, é preciso atenção ao contexto maior que envolve o tema.

“Eu tentaria entender porque só houve um resgatado. Será que a fiscalização foi suficiente? Será que ela chegou a todo o estado? Será que as ações fiscais não foram direcionadas para setores onde não mais ocorre trabalho escravo? Hoje em dia, milhares de pessoas no país são submetidas à escravidão. E, infelizmente, no Brasil e certamente no estado de Mato Grosso essa é uma realidade ainda longe de acabar”.

O procurador do Trabalho Renan Bernardi Kalil, coordenador regional suplente da Coordenadoria Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo (CONAETE) do MPT em Mato Grosso, falou sobre as características do Projeto Ação Integrada, sobre os mecanismos de repressão e prevenção hoje adotados no país para combater o trabalho escravo e sobre a relevância da cobertura jornalística. “Se pensa na escravidão como a que tínhamos na época do Império, com pessoas acorrentadas ou presas em uma senzala. É importante que a imprensa pontue as diferenças do trabalho escravo conforme o grau de violação. Na maioria das vezes, esta confusão de conceitos atrapalha o combate”.

Sobre o balanço divulgado pelo MTE, o Oficial de Projeto do Programa de Combate ao Trabalho Escravo da OIT no Brasil, Antônio Carlos de Mello, afirma que o principal erro que os jornalistas podem cometer ao abordá-lo é afirmar que o único resgate realizado representa o fim do trabalho escravo em Mato Grosso. De acordo com Mello, há diversos fatores, como a quantidade insuficiente de auditores fiscais, as dimensões territoriais e os frequentes processos migratórios para o estado, que contradizem isso.

”O que aconteceu de um ano para outro para que possamos dizer que houve redução? Nada. Viemos avançando desde 1995 no combate à escravidão, mas o avanço é lento. Mato Grosso é um Estado que vem crescendo e isso atrai muitas pessoas. Alguns vêm para cá com condições de investir em terras e negócios, porém outros chegam sem qualquer oportunidade de trabalho. E são estes que ficam vulneráveis ao trabalho escravo”.

Desafios – Jornalista há mais de 10 anos, Raquel Ferreira diz que assim como seus colegas de redação, também encontra dificuldades na apuração in loco das notícias, devido ao pouco tempo para elaboração de uma matéria. Segundo ela, independente da área de atuação, seja no caderno de política, economia ou cidades, os jornalistas precisam se ater um pouco mais ao processo de apuração.

No caso do trabalho escravo, ela conta que se surpreendeu em conhecer todo o processo do chamado “ciclo da escravidão” discutido durante a Oficina. “Muitas vezes ficamos presos à redação e realmente não temos tempo para fazer essa ligação e enxergar outros caminhos da pauta. Achei a iniciativa de trazer isso aos jornalistas muito válida, até pela relevância do tema”.

Oficina de Capacitação para Imprensa "Trabalho Escravo"

Oficina de Capacitação para Imprensa “Trabalho Escravo”

Durante sua apresentação na Oficina, Marques Casara deu exemplos de manchetes e reportagens que não trataram todas as questões envolvidas no trabalho escravo de maneira aprofundada. Os casos citados chamaram a atenção dos jornalistas presentes, que conseguiram enxergar onde estão as falhas neste tipo de cobertura. “Na grande maioria das vezes, o verdadeiro responsável não está ali naquela fazenda no momento do flagrante. É responsável quem financia e muitas vezes não é o dono, não é quem compra o produto. Quem está na ponta dessa cadeia é tão responsável quanto o capataz que mantém os trabalhadores escravizados”.

Membro da Direção Colegiada do Sindicato dos Jornalistas de Mato Grosso (Sindjor-MT), Priscila Mendes foi uma das que se surpreendeu com os exemplos mostrados por Casara.  Segundo ela, quando o jornalista aproxima o trabalho escravo da população, demonstrando que todos têm a ver com o problema, a matéria cumpre seu papel.

“Eu me lembro do quanto eu fiquei chocada quando li uma matéria sobre determinada loja de roupas que eu frequentava que contratava trabalhadores em situação análoga à escravidão. Acho que todo mundo quando vê o problema mais de perto se sensibiliza também. O jornalista tem que tratar as vítimas do trabalho escravo não como números ou estatísticas, mas como pessoas”.

Nesse sentido, o procurador do Trabalho Thiago Gurjão Alves Ribeiro, coordenador regional da CONAETE e do Grupo de Articulação para a Erradicação do Trabalho Escravo em Mato Grosso (GAETE-MT), alertou que, muito embora o MPT e demais órgãos que atuam no combate ao trabalho escravo utilizem os instrumentos jurídicos existentes para obter a responsabilização daqueles que cometem um crime como esse, a grande lei capaz de dar as respostas imediatas à sociedade e a quem se beneficia dessa prática é a do mercado. “Os grandes atores hoje desse tipo de responsabilização são vocês, comunicadores, que vão levar esses fatos à sociedade para que ela possa demonstrar o seu repúdio a essa conduta”.

Gurjão contou, ainda, que por ocasião dos eventos que marcaram, em Brasília, os 20 anos de criação do Grupo Especial de Fiscalização Móvel, o sentimento dos atores que se engajam no combate ao trabalho escravo era de preocupação, especialmente com alguns fatos que têm ocorrido no cenário político brasileiro: a aprovação, pela Câmara dos Deputados, do Projeto de Lei da Terceirização, e as tentativas que vêm ganhando força de se retroceder na proteção legal do conceito de trabalho escravo.

O procurador, então, falou novamente sobre o importante papel que os jornalistas desempenham no exercício de suas funções. “Vocês é que fazem a ponte entre os fatos e a sociedade. A gente vive hoje uma grande batalha de informação e desinformação a respeito desses temas e queria aqui chamar atenção para esse compromisso fundamental, principalmente nesse contexto atual bastante peculiar do nosso país”, concluiu.

Fonte: Pau e Prosa Comunicação

 

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