05/04/17

​Ação Integrada: projeto de combate ao trabalho escravo qualifica 23 trabalhadores

 

Foto: MPT/MT

 

“Agradecemos a Deus, em primeiro lugar, por mais essa vitória alcançada, agradecemos às nossas famílias, que sempre nos apoiaram, agradecemos ao Ação Integrada, porque foi o projeto que valorizou as três classes de pessoas mais humilhadas e massacradas do Brasil e do mundo, que são os negros, os pobres e os trabalhadores resgatados”. A fala integrou o discurso emocionado de Agnaldo da Silva, trabalhador que recebeu, no dia 24/03, o certificado de conclusão do curso de Operador de Máquinas e Implementos Agrícolas, em cerimônia realizada na sede do Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso (MPT-MT).

Agnaldo da Silva foi o orador de uma turma composta por outros 22 egressos do trabalho escravo. Eles participaram do Projeto Ação Integrada, coordenado pelo MPT-MT em parceria com a Superintendência Regional de Trabalho e Emprego de Mato Grosso (SRTE-MT) e Universidade Federal de Mato Grosso, com o apoio técnico da Organização Internacional do Trabalho (OIT); e realizaram o sonho da qualificação profissional.

 

Foto: MPT-MT

 

O desempenho dos trabalhadores foi constantemente elogiado durante o evento. A procuradora do Trabalho Lys Cardoso, representante regional da Coordenadoria Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo (Conaete), enalteceu a força de vontade dos participantes e disse, ainda, que a formatura se tratava de um momento histórico, de reafirmação da importância dos direitos trabalhistas.

“O MPT vem acompanhando o projeto desde o seu início e tem a honra de estar presente nesse momento. Quero dar os parabéns a cada um de vocês, pois o que a gente está vendo aqui hoje é uma grande conquista da cidadania. A gente está vivendo no Brasil um momento muito difícil para a classe trabalhadora, todos os dias a gente vivencia algum ataque aos direitos trabalhistas, mas é também um momento de luta e vocês simbolizam isso”, concluiu a procuradora.

O superintendente Regional do Trabalho e Emprego de Mato Grosso, Amarildo Borges de Oliveira, explicou que o Projeto Ação Integrada é uma tentativa de romper um ciclo vicioso do trabalho análogo ao escravo. “Há muita gente em situação de vulnerabilidade na nossa sociedade. Claro que esse curso tem que ser visto como um pontapé inicial na retomada da vida de vocês, mas espero que ele abra horizontes para que a partir daqui vocês consigam ter outras possiblidades melhores de sucesso na vida e para que não voltem à mesma situação pela qual passaram”, pontuou.

O diretor da Faculdade de Agronomia Zootecnia da UFMT, professor Emílio Carlos Azevedo, lembrou que o curso vai além de uma formação técnica. “É um curso que tenta dar o entendimento do que é ser cidadão, como trabalhador e como ser humano”. Azevedo disse, ainda, que os trabalhadores deveriam ser parabenizados pelo esforço e dedicação que demonstraram durante todo o processo. “Que passe na cabeça de vocês o pensamento do dia que vocês foram abordados, do dia que vocês chegaram à fazenda e o que vocês estão fazendo hoje. Vocês tiveram um ganho com certeza e vão carregar isso para o resto das suas vidas”.

A consultora da OIT, Bianca Vasquez, recordou a experiência com os formandos. “Tive a rica oportunidade de acompanhar esse grupo de alunos. É uma emoção que a gente sente de chegar nesse momento. Sabemos das dificuldades que vocês enfrentaram, desde a decisão de fazer o curso quando há o convite, e continuarem aqui, muitos longe da família. Essa turma teve baixo índice de desistência e espero que vocês possam, a partir de todo o conhecimento que receberam nesse curso, trilhar mesmo um caminho, ressignificar a vida de vocês e dos seus familiares”.

Projeto 

O Projeto Ação Integrada visa possibilitar às vítimas do trabalho escravo uma formação cidadã. Por meio de ações de prevenção e assistência, viabiliza o acesso ao mundo do trabalho decente e estimula a autoestima e o desenvolvimento pessoal.

O curso de Operador de Máquinas e Implementos Agrícolas foi realizado de novembro de 2016 a março de 2017 na Fazenda Experimental da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), no município de Santo Antônio do Leverger.

Ao finalizar o seu discurso, o trabalhador Agnaldo da Silva resumiu o sentimento coletivo daqueles que o acompanharam ao longo de quase quatro meses. “Hoje é uma data muito especial, é a nossa formatura, o que significa que nós estamos qualificados para enfrentar o mercado de trabalho. Formatura é um momento de alegrias, tristeza e agradecimento. Alegria por estarmos qualificados para o mercado de trabalho, graças ao Ação Integrada, e tristeza porque a partir de hoje o grupo separa e cada um segue seu destino”.

Em seguida, o formando agradeceu a todos que contribuíram para o resgate da dignidade e dos direitos negados no passado. “Agradecemos a cada um dos professores pela sua boa vontade e a paciência de nos ter ensinado. Agradecemos as cozinheiras, a Casa do Migrante, a UFMT, Corpo de Bombeiros, Secretaria de Justiça, Defensoria Pública, os vigias, os zeladores e os parceiros que nos proporcionaram essa realização”. No fim, desabafou: “Dizemos que foi apenas mais um degrau dentre as várias vitórias que alcançaremos, mas sempre nos mantendo firmes na fé, com humildade e amor ao próximo. Nós queremos um Brasil de mais oportunidade e menos desigualdade social”.

 

Fonte: MPT-MT

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